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COMO ADMINISTRAR UM TERREIRO ????

COMO ADMINISTRAR UM TERREIRO ????

O Terreiro

Na Bahia, no início do século, os terreiros dedicados aos cultos dos Orixás eram freqüentemente instalados longe do centro da cidade. Com o crescimento da população e a extensão tomada pelos novos bairros, eles, progressivamente, se viram incluídos na zona urbana. Estes terreiros são geralmente compostos de uma construção denominada barracão, com grande sala para as danças e cerimônias públicas de uma série de casas onde são instalados os Pejís, consagrados aos diversos Orixás, e de locais de moradias destinados às pessoas que fazem parte do candomblé.

A responsabilidade do culto repousa sobre o Pai ou a Mãe de Santo, correspondentes aos termos Yorubá de Babalorixá ou Iyalorixá. São chamados também de Zelador ou Zeladora, termos equivalente aos do Babalorixá ou Iyalaxé, Pai ou Mãe (encarregados de cuidar) do Axé, do poder do Orixá.

Os Pais ou Mães de Santo são assistidos por pais ou mães pequenos, Babá ou Iya Kekere, em Yorubá, por toda uma série de ajudantes, com papéis e atividades diversos e definidos. Assinalemos a Dagan que, antes das cerimônias públicas, se encarrega, com a ajuda de Iyamorô, do Padê ou Despacho de Exú, do qual falaremos mais adiante; a Iyatebexe que assiste ao pai ou à Mãe de Santo para dirigir a seqüência de cânticos aos Orixás, no decorrer das cerimônias públicas; a Iyabassé, que supervisiona a preparação das comidas destinadas aos deuses e aos seres humanos; as Ekedis, que são encarregada de cuidar dos Iaôs, logo que esses entram em transe; o Serepegbé, que leva as mensagens para a Sociedade do terreiro.

Encontramos, ainda, o Axogúm, encarregado de fazer os sacrifícios dos animais oferecidos aos Orixás, e o Alagbé, chefe dos tocadores de atabaques.

Certos dignatários, chamados de Ogãs, não tem funções religiosas especiais, mas ajudam materialmente o terreiro e contribuem para protegê-lo. Foram uma sociedade Civil, de ajuda mútua, cujos objetivos humanitários são geralmente explícitos, sendo esta colocada sob a invocação de um Santo Católico. Alguns Ogãs levam o título pretigioso de Obá,no terreiro de Opô Afonjá, e o título de Mangbá, no de Opô Aganju, como lembranças de acontecimentos que, na África, deram nascimento ao culto d e Xangô.

Existem, enfim, os Iaôs, mulheres dos Orixás, conhecidas no Brasil como filhas ou filhos de Santo.

Nos dias de cerimônia pública, chamados d Xirê dos Orixás - a festa, a distração dos Orixás - o barracão é decorado com guirlandas de papel, nas cores do dus festejado nesse dia. O chão é cuidadosamente varrido, salpicado de perfumadas folhas de pitanga, e grandes palmas enfeitadas com fitas são arrumadas em torno da parede. O Pai ou a Mãe de Santo, cercado de seus ajudantes, fica sentado próximo dos atabaques, que são colocados sobre um pequeno estrado, enquadrado por palmas trançadas. Os Ogãs são instalados em cadeiras especiais, ornamentadas e marcadas com seus nomes, onde só eles tem o direito de se sentar; os visitantes importantes sentam-se em bancos e o resto do público fica dividido em dois grupos, homens dum lado e mulheres de outro, todos separados da parte central do barracão, onde dam; camo os Filhos e Filhas de Santo.Antigamente, o piso do barracão devia ser de terra batida, e os Iaôs dançavam descalços para que o contato com a terra e o mundo do Além, onde residem os Orixás, fosse mais direto.

Por razões de prestígio, o piso do barracão é de cimento e, algumas vezes, recoberto com assoalho de madeira.

No início da festa, a orquestra - que é composta de três atabaques de tamanhos diferentes, denominados Rum, Rumpi e Lé, acompanhados de um sino de percussão, o Agogô - toca apelos ritmados às diversas divindades. Esses atabaques apresentam uma forma cônica e são feitos com uma única pele, fixada e esticada por um sistema de cravelhos para os Nagôs e os Gegês, e por cunhas de madeira para os tambores Ngomas, nos Congos e Angolas.

Tais instrumentos possuem um papel essencial nas cerimônias. Eles foram batizados e, de vez em quando, é preciso manter suas forças, o Axé, por meio de oferendas e sacrifícios. Os atabaques preenchem um duplo papel: o de chamar os Orixás no início da cerimônia e, quando os transes de possessão se produzem, o de transmitir as mensagens dos deuses. Somente o Alagbé e seus auxiliares, que tiveram uma iniciação, têm o direito de tocá-los. Nos dias de festa, os atabaques são envolvidos com tiras de pano, nas cores do Orixá evocado. Durante a cerimônia, eles saúdam com um rítmo especial, a chegada dos membros mais importantes da seita e estes vem se curvar e tocar respeitosamente o chão, durante uma cerimônia, em frente da orquestra, antes mesmo de saudar o Pai ou a Mãe de Santo do terreiro.

No caso em que um desses atabaques seja derrubado ou venha a cair no chão durante uma cerimônia, esta é interrompida por alguns instantes, em sinal de contrição.

O uso do tambor Batá, utilizado por Xangô na África, perdeu-se no Brasil mas foi mantido em Cuba. Os ritmos chamados de Batá são ainda conhecidos por este nome na Bahia. Acontece o mesmo com o ritmo denominado Igbin, dedicado a Oxalá, que na África é batido sobre tambores que levam o mesmo nome. Outros ritmos como, por exemplo, o Igexa, são tocados em certos terreiros sobre os Ilús, pequenos tambores cilíndricos com duas peles ligadas uma à outra, durante os cultos de Oxun, Ogun, Oxalá e Logumedé.

Durante os toques de chamada feitos no início da cerimônia, os atabaques são batidos sem acompanhamento, sem danças e sem cantos, o que contribuiu para realçar, graças a este despojamento de elementos melódicos, a pureza do ritmo associado a cada Orixá. Em lugar de ritmos, podíamos chamá-los ideofones ou locuções musicais, segundo a definição de Fernando Ortiz.

O elemento melódico das músicas africanas destaca-se, no decorrer das cerimônias privadas, no momento dos sacrifícios, oferecimentos e louvores dirigidos às divindades frente aos Pejís. São cantos sem acompanhamento de tambores, o ritmo ficando ligeiramente marcado pelo bater das palmas. A melodia é rigorosamente submetida às acentuações tonais da linguagem Yorubá.

Os dois elementos, ritmo e melodia, encontram-se associados no decorrer do Xirê público, quando os sons dos atabaques são acompanhados por cantos.

Antes de começar o Xirê dos Orixás (a dança, a alegria dos Orixás) no barracão, faz-se sempre o Padê, palavra que significa "encontro" em Yorubá; um encontro, principalmente com Exú, o mensageiro dos outros deuses, para acalmá-lo e dele obter a promessa de não perturbar a boa ordem da cerimônia que se aproxima.

Nos terreiros de origem Ketu este Padê apresenta-se de duas maneiras: pode consistir em alguns cânticos em honra a Exú e em oferendas de farofa amarela, a cachaça e de azeite de dendê, depositados fora do barracão, ao ter início o Xirê.

O Padê pode, também, tomar uma fórmula mais elaborada quando for feito o sacrifício de um animal de quatro patas - carneiro, cabra, bode, tartaruga - acompanhado de animais de duas patas, galos e pombos, bem cedo ao amanhecer. O Padê nesses casos, faz-se à tarde, algumas horas antes do Xirê. Trata-se, então, de uma cerimônia completa. As oferendas ficam reunidas no centro do barracão, alguns recipientes contendo farofa amarela, cachaça, azeite de dendê e acaçá.

A Dagan ajoelha-se e arruma as oferendas de acordo com os cânticos, em pequenas porções dentro de uma cabaça entregando-a a Iyamorô, que dança em torno dela, e leva-a para fora do barracão. Os Iaôs ficam ajoelhados, o corpo inclinado para frente, com a cabeça pousada sobre os punhos fechados, colocados um por cima do outro. O Pai ou a Mãe de Santo entoa os cânticos que são repetidos em coro pelo conjunto de Filhos e Filhas de Santo.

Exú é saudado como prelúdio a uma série de cantos e de louvores dirigidos sucessivamente aos Essas, fundadores dos primeiros terreiros Ketu da Bahia. Essa Assiká, Essa Obitikô, Essa Oburô, a quem já nos referimos, são, desta maneira, devidamente honrados em companhia de quatro outros, Essa Ajadi, Essa Adirô, Essa Akessan, Essa Akayodé, sobre os quais não se tem conhecimento. Iyami Oxoronga, também conhecida por IyaAgba - "minha mãe feiticeira" ou "Velha Senhora Respeitável" - é em seguida saudada para evitar que sua suscetibilidade, que é grande, seja ferida, tentando-se, deste modo, afastar a ameaça de uma possível vingança.

Uma vez terminada esta parte do ritual, todos se põem de pé, mãos estendidas em forma de saudação, enquanto que a Iyamorô e as outras pessoas que tomavam parte ativa do Padê dançam, por um momento, para honrar a memória dos portadores de títulos desaparecidos.

Mais tarde, no início da noite, começa o Xirê. Os Iaôs vêm saudar a orquestra e prosternar aos pés do Pai ou da Mãe de Santo, executando, em seguida, ao som dos atabaques danças para cada um dos Orixás. Descrevemos, nos capítulos seguintes, o caráter destas danças, ora agressivas, ora mejestosas, ora graciosas, ora atormentadas.

Para o conjunto dos fiéis, estes cantos e essas danças são famosas de saudar as divindades. Para os Filhos e Filhas de Santo, consagrados a um Orixá determinado, quando chega a hora de evocar este deus, a dança toma um caráter mais profundo, mais pessoal e os ritmos pelos quais foram sensibilizados tornam-se uma chamada do Orixá, e podem provocar neles um estado de embriaguez sagrada e de inconsciência que os incitam a se comportar como o deus, enquanto vivo. O transe começa por hesitações, passos em falso, tremedeiras e movimentos desordenados dos Iaôs. Imediatamente, ficam descalços, as jóias que as mulheres usam são retiradas, as calças dos homens são arregaçadas até o meio da perna.

Depois de alguns instantes, eles começaram a dançar, montados pelos seus deuses, com expressões faciais e maneiras de andar totalmente modificadas. Os Orixás são recebidos com gritos e louvores. Em seguida, fazem a saudação aos atabaques, ao Pai ou à Mãe de Santo, aos Ogãs do terreiro, sendo finalmente levados, pelas Ekedis, ao Pejí do seu deus. Os Iaôs vestem-se com roupas características do seu Orixá e recebem sua armas seus objetos simbólicos.

Uma vez convenientemente vestidos, todos estes Orixás encarnados voltam em grupo ao barracão, onde começam a dançar diante de uma assistência recolhida. Xangô desfila majestosamente, Oxum requebra-se, Oxossi corre perseguindo a caça, Ogum guerreia, Oxalufan, enfraquecido e curvado pelo peso dos anos, arrasta-se mais do que anda , apoiado no seu Paxorô.

Há variações e sutilezas sobre estas entradas em transe que se inspiram em detalhes indicados nas lendas dos deuses. Se a festa é para Xangô, pode-se aguardar a sua volta momentânea à Terra, acompanhado por suas mulheres.

Participam igualmente desta cerimônia Oxum, Oyá-Yansã. Obá e eventualmente, o seu irmão mais velho, Dadá-Ajaké. Mais raramente, aparecem Oxalá e Nanan Buruku.

Se a cerimônia destina-se a Ogun, Oxossi, também estará presente, sendo provável o comparecimento de Oyá-Yansã, está freqüentemente em briga, à golpes de sabre com Ogun o que ocorre, quando os dois se encontram no mesmo terreiro.

Se a festejada for Oxun, Xangô estará presente mas Oxossi também pode comparecer, como lembrança de suas aventuras passadas.